David Mendes

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Lágrimas de Banheiro



By  David Mendes     16:28    Marcadores: 

Como posso reconhecer a alegria se nunca vi a tristeza?
Khalil Gibran disse, aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria.
Reconhecer a alegria e não apenas conhecê-la – esse é o segredo. Mas não é tão fácil assim. Não temos um manual, muito menos alguém que nos forneça a prática sem que nos empurre pela estrada.
Somos felizes em noventa e nove por cento de toda a nossa vida, mas preferimos dar certa atenção ao mísero "um por cento" que rege o nosso inferno na Terra. Conhecemos muitas alegrias da vida, mas quase nunca à reconhecemos como tal; respiramos fundo para cantar uma belíssima canção sem nos darmos conta de que a emoção seria bem maior se dessemos graças à oportunidade de enchermos os pulmões por uma vez mais.
Fica a impressão de que o sofrimento é uma arte na qual nos realizamos como semideuses ao deixá-lo fluir, já que ignoramos a tolice em evidência. Digo semideuses porque, embora ainda não nos vemos como a um Deus, clamamos por uma atenção centralizada como se fossemos uno abaixo Dele.
A tristeza é necessária para quê afinal? Para o nosso amadurecimento? Algumas pessoas transformam a tristeza em escudo fazendo com que os sentimentos dos outros não as toquem. Outras, como um filtro que separa o joio do trigo. Há quem faz da tristeza um imenso espelho, que rebate tudo de volta, sem ao menos provar ou filtrar os sentimentos alheios. Eu já agi nessas três modalidades muitas vezes no passado. Hoje, prefiro pensar como o Khalil, não fazendo da tristeza mais uma justificativa para fixar uma felicidade errônea mostrando-me forte mas, sim, transformando-a em mais uma das muitas referências em minha vida para limiar meus objetivos, minhas alegrias.
Sei que o verdadeiro reconhecimento se dará das lembranças das minhas tristezas vividas. O verdadeiro reconhecimento fará com que eu não confunda tristeza com experiência. Se eu não for capaz de reconhecer essa alegria nascente da minha tristeza, certamente à confundirei como experiência de vida e certamente farei dela um broquel, um filtro ou um enorme espelho onde meu egoísmo negará o puro amor ao meu semelhante fazendo que eu o acuse pelos erros que ele cometeu no passado, quando na verdade, eu estaria na defensiva por causa dos sofrimentos que no passado eu vivi, e que até agora não os compreendi.
Claramente, vê-se um circulo vicioso que infecta a todos que tentam nos amar de verdade. E ao longo dos anos, somos, sem assumir, os verdadeiros culpados por essa sociedade, não carente de amor mas, sem o amor.
Essa é uma das formas de mudarmos as pessoas sem que digamos algo à elas. Fazendo apenas com que elas provem das nossas experiências – negando a nossa alegria de viver. Pois, como podem esperar ganhar rosas de quem só recebeu espinhos ao longo da vida?
Qualquer tipo de sofrimento nos causa um choro, dentro ou fora de nós. Confesso já ter chorado na frente de pessoas que se faziam de muralhas. Tentei com gotas persuadi-las. Tentei com encenações desesperadas demonstrar um sofrimento criado propositalmente, apenas para persuadir, para conquistar, dominar de vez. Hoje estou seguro de que lágrimas não derrubam muros, e sim, eleva-os cada vez mais.
Raramente as lágrimas derramadas por causa desse sofrimento encenado carecem de espectadores. Quando a dor é superficial, achamos graça em divulgá-la ao léu. Mas quando a dor transcende de nossa alma, aí as lágrimas são aquelas choradas no banheiro, longe de tudo e de todos. E geralmente, são essas lágrimas de banheiro as que temos pavor em expô-las ao público.
São essas lágrimas de banheiro, choradas diante de um espelho, que nos ensinam algo de verdade sobre a vida. Elas deixam marcas ardentes ao escorrerem, e uma leve sensação de conforto ao se secarem. E o que mais impressiona, é que nem sempre essas lágrimas se fazem no estado líquido. É como se o coração tomasse o lugar dos nossos olhos.
Quando surgem esse tipo de lágrimas em nós, é porque reconhecemos nossas maiores falhas. Então choramos escondidos porque não queremos que ninguém saiba dessas nossas falhas. E a melhor forma de escondê-las eternamente, é consertando-as definitivamente o quanto antes. Acho que só assim reconhecemos a alegria de viver plenamente em harmonia – através da tristeza absoluta que enclausura nossa alma numa cela repleta de egoísmo.
Para mim, a tristeza foi necessária a fim de me engrandecer um pouco mais. Porém, devo admitir que errei num ponto grave, e errei feio! Errei ao deixar que minha tristeza escapasse de mim, indo ao encontro de quem eu mais amava.
Incrivelmente sem explicação lógica, as pessoas, em sua maioria, são inóspitas aos sentimentos de amor. Elas absorvem com mais facilidade a dor, o rancor, tudo o que temos de ruim dentro de nós, e que no fundo fazemos o maior esforço para camuflar.
Se hoje consigo reconhecer uma pequena parcela da alegria nas coisas da vida, é graças às tristezas da vida, e não à alegria que já existia.

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Sobre o Autor David Mendes

O Escritor Místico nascido na cidade de São Paulo é Autor do Livro "Astral - Uma Viagem sem Volta", puplicado no verão de 2015 e prefaciado por Angie Stanley, Escritora, Psicóloga, Palestrante e ocupante da Cadeira de Número 1 da Academia de Letras Cora Coralina. David está prestes a publicar sua primeira trilogia, "A Loja", e, logo mais, sua Obra mais aguardada por seus leitores, "CID10 - O Diário de Uma Esquizofrênica". Leia a Biografia Completa do Autor.


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